Crítica ao livro “A Invenção da Terra de Israel”, de Shlomo Sand.

Autor:  Donald Sassoon, professor de História Comparada da Europa na Faculdade Queen Mary da Universidade de Londres.

Neste segundo volume da sua trilogia sobre estudos judaicos, Shlomo Sand explora como a “Terra de Israel” foi inventada e desmascara a mitologia nacionalista-sionista popular.

Em 2009, Shlomo Sand publicou “A Invenção do Povo Judeu“, no qual afirmou que os judeus têm pouco em comum uns com os outros. Não existe uma linhagem étnica comum em virtude do elevado índice de conversão na antiguidade. Também não têm uma linguagem comum, pois o hebraico era unicamente utilizado para efeitos litúrgicos e não era nem falado no tempo de Jesus. O ídiche era somente utilizado pelos judeus asquenazes. O que resta para os unir? Religião? Mas religião não cria um povo – vejamos o caso dos muçulmanos e dos católicos. Além de que muitos dos judeus não são religiosos. Sionismo? Não passa de uma opção política: alguém pode ser escocês e não ser partidário do nacionalismo escocês. Além de que muitos judeus, incluindo sionistas, não têm a mínima intenção de “retornar” à Terra Santa preferindo permanecer em Londres, Brooklyn ou onde seja. Por outras palavras, a designação de “Povo Judeu” é uma construção política, uma invenção. Agora, Sand diz-nos neste segundo volume, daquilo que será uma trilogia, que mesmo a ideia de “Terra de Israel” foi inventada. O terceiro volume da trilogia será “A Invenção dos Judeus Seculares”.

A “Terra de Israel” quase não é mencionada no Antigo Testamento; a expressão mais frequente é Terra de Canaã. Quando é mencionada, não inclui Jerusalém, Hebron ou Belém. “Israel” bíblica é somente Israel Norte (Samaria) e jamais existiu um reino único e unido que incluísse a antiga Judeia e Samaria.

Terra de Canaã

Mesmo que tal reino alguma vez tenha existido, não é um argumento válido para reivindicar um estado após mais de 2000 anos. É uma ironia da História que tantos sionistas, muitos deles seculares e socialistas usem argumentos religiosos para sustentar as suas teses. Além disso, orelato bíblico deixa bem claro que os judeus, liderados por Moisés e depois por Josué, foram colonizadores e ordenados por Deus para exterminar “tudo o que respire”.

“Destrói-os completamente – HititasAmoritas, Cananeus, Ferezeus, Hivitas e Jebuseus - como o Senhor vos ordenou”.  Imagem se os Amoritas voltassem para reclamar a sua antiga terra. Se o fizessem, isto é o que Deuteronômio 20 tem a dizer: “Passem pela espada todos os homens … Quanto às mulheres, crianças, gado e tudo o mais… podem tomá-los para vós como pilhagem”.  Hoje em dia, uma injunção deste tipo iria levá-lo diretamente para o Tribunal Penal Internacional.

A incerteza quanto ao que constitui exatamente a “Terra de Israel” perdura até hoje. Existe um estado de Israel reconhecido internacionalmente com fronteiras claramente definida (A Linha Verde de 1967 resultou da expansão que se seguiu à guerra de 1948) e existe a “Terra de Israel” cujas fronteiras dependem de quem está a falar; para alguns isso inclui toda a Cisjordânia, para outros toda a Jordânia. Para muitos, inclui parte da Turquia, Síria e Iraque, pois Deus prometeu a Abraão e aos seus descendentes “esta terra, desde o rio do Egito até ao Eufrates”.

No judaísmo tradicional não existe qualquer determinação de “regresso” à “Terra de Israel”. O ritual “próximo ano em Jerusalém”, que faz parte da oração do Sêder de Pessach, nunca foi uma chamada para reivindicar ou reconstituir um estado.

No século XIX, aqueles que defendiam o “regresso” dos judeus à Terra Santa eram mais cristãos sionistas que judeus. Lord Shaftesbury, um Tory compassivo que contribuiu para a melhoria das condições de loucos em asilos e crianças nas fábricas (The Ten Hours Act, 1833), lutou incessantemente para promover uma presença judaica na Palestina. Shlomo Sand descreve-o como um Theodor Herzl antes de Herzl, e com razão pois parece que foi Shaftesbury quem criou a famosa frase “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Claro que ele tinha a esperança que os judeus se convertessem ao cristianismo. Lord Palmerston, do lado liberal, também se entusiasmou com a ideia,  não por se importar com os judeus (ou cristãos), mas porque pensava que se os judeus britânicos colonizassem uma parte do Império Otomano, isso aumentaria a influência britânica.

Nessa altura, poucos judeus eram sionistas. Quando perseguidos, como aconteceu no Império Russo, preferiam fugir para as novas terras de emigração, como a Argentina ou os Estados Unidos, do que para a Terra Prometida. O que terá feito possível o “Estado de Israel” não foi a promessa de Deus, mas sim o Holocausto e a relutância ocidental de providenciar refúgio aos sobreviventes.

Grande parte do que Shlomo Sand revela é conhecido pelos especialistas. O seu feito consiste em desmascarar a mitologia nacionalista que reina em grande parte da opinião popular. Também normaliza os judeus, uma vez que desafia a crença no excepcionalismo. O Holocausto foi um evento único, mas a ladainha nacionalista é basicamente semelhante em todas as nações – quase um gênero literário em si – pois está dividida entre um sentido lacrimoso de vitimização e auto-piedade e um conto ufanista de feitos heroicos.

Autor:  Donald Sassoon (judeu antissionista)

Donald Sassoon é professor de História Comparada da Europa na Faculdade Queen Mary da Universidade de Londres. 

Tradução: SionismoNet

Fonte: http://www.guardian.co.uk/books/2013/apr/18/invention-land-israel-shlomo-sand

 

8 Responses to Crítica ao livro “A Invenção da Terra de Israel”, de Shlomo Sand.

  1. Henrique 01/05/2013 at 02:36 #

    Interessante, ainda mais depois desse avanço brutal do movimento evangélico no Brasil, que criou uma legião de zumbis cristo-sionistas fanáticos, cegos, surdos e mudos.

  2. leonildo dos santos 23/09/2013 at 17:17 #

    Leo santos meu querido professor,voce nao entede nada de profecia biblica…

    • Tom 03/07/2014 at 17:47 #

      leonildo dos santos, o que se trata aqui é de abordar a realidade histórica e não fantasias religiosas!

  3. José Manoel 17/07/2014 at 15:31 #

    Penso que o texto “Não existe uma linhagem ética comum em virtude do elevado índice de conversão na antiguidade.”, a palavra correta seria étnica. Se assim o for pediria para que fosse corrigida para melhor entendimento do texto.

    • admin 17/07/2014 at 17:55 #

      Obrigado pela correção amigo José Manoel.

  4. Cris 19/07/2014 at 16:36 #

    Bastava ser um povo de fé em um Deus Único,de expressão plural…Eloi e Eloim,são os mesmos,Pai Filho,Espírito Santo,e suas possíveis e verdadeiras manifestações…Essa Terra Prometida,é claro que foi conquistada por um tempo,mas como sempre,o escárnio,e o deboche fizeram com que Deus os deixasse à própria sorte.Os dois povos que reivindicam a mesma terra até hoje ,são filhos do mesmo pai,e isso ninguém comenta.É BRIGA DE IRMÃOS!Não adianta historiadores ficarem estudando quem é esse Deus,que eles classificam de sanguinário,atendo-se única e exclusivamente ao lado histórico do problema.Deus não está absolutamente preocupado com isso,e sim que o próprio povo dEle o rejeitou, e como o Pai disse…ainda que Eu precise,suscitarei pedras a darem testemunho de mim…Seria interessante e verdadeiro,que todos os historiadores,filósofos,cientistas,estudassem o contexto, a partir da proposta do próprio Deus Verdadeiro.A ponto de Ele mesmo dizer,contrapondo-se ao seu próprio povo,que eles seriam expostos ao vexame,à humilhação,como vem sendo no último século.Deus está usando ramo enxertado pra que eles acreditem ,mas mesmo assim não enxergam,e preferem viver da lei mosaica.Isso porém não os tira da luta original pela posse de terra.Mas isso tem quase seis mil anos de história.Será que daria pros pesquisadores incluírem as descobertas teológicas que corroboram a existência desse Deus,Cujo Nome É Pai, e seu Santo Espírito,e de seu Santíssimo Filho, em suas conclusões?Se os pesquisadores prestarem atenção na história,verão que cada vez que o homem quiz andar sozinho,só fez titica, e ele sim se tornou sanguinário.Você quer ser filho de Deus,mas não quer aceitar suas ordenanças?Então você não quer ser filho de nada ,certo?Se você quer ,aceite em primeiro lugar,que Ele é o Criador,e portanto dono de tudo.Segundo,Ele não aceita promiscuidade de forma e espécie nenhuma,mas deseja transformar pessoas de egos duros,em pessoas de visão do Amor Ágape,simples assim.São dois irmãos brigando pelos bens do mesmo Pai.E é claro que isso não pode dar boa coisa,porque nenhum deles aceitou que o Amor Verdade nasceu pra conciliar as duas coisas.E é por isso que quem crê no Filho de Deus,Cujo Nome É Pai,precisa ser exterminado, sendo hábil que se crie uma Nova Ordem Mundial…Então não?Somos os únicos que entendem que os mesmos motivos e a mesma fé os divide.Como?O Antigo Testamento é o guia de todas as religiões judaico-crsitãs-islâmicas,ou seja, o Torá,é o mesmo que o Alcorão,o mesmo que a Bíblia.E nada mais manipulável do que tirar aquele que enxerga a verdade ,do caminho.Fantasias religiosas?Como assim?Se é por causa dela que vocês pretendem formar uma opinião massacradora na humanidade?Faça uma pesquisa científica e histórica,abra sua mente e veja quem foi o homem longe do verdadeiro Deus.O problema é que o Pai não se deixa manipular,isso que é difícil de historiadores entenderem.O que eu acho mais engraçado,é que quando historiadores descobrem qualquer coisa a respeito de outras religiões no mundo,sobreviventes ou não,fazem o maior estardalhaço,com aquelas de vamos resgatar isso,ou aquilo,eles acreditavam nisso ou naquilo.Mas quando se trata de comprovar os caminhos de Deus no mundo,é sempre no sentido de dizimar qualquer opinião a favor.Mas existe internet,é só pesquisar quanta coisa a ciência comprovou, é irrefutável.

  5. Leandro Lyrio 16/08/2014 at 16:53 #

    O sentimento sionista nasceu antes da 1ª Guerra Mundial. Dizer que Israel foi construído devido à Insegurança perante perseguição aos Judeus é até plausível. Visto que vários navios com refugiados eram rejeitados em certos países. Mas dizer que é a Terra Prometida à um povo é querer jiustificar a injustiça e perseguição. Aliás aquela 1ª divisão da palestina me cheira muito mal. Como pode um país dividido no meio. Parece que Israel tratou de cercar a palestina na intenção de uma posterior tomada.

    Dizem que Israel é um Estado laico, mas nao tenho visto algo diferente:

    ## Vide o que acontece em Israel:

    – Judeus ortodoxos sob ameaça:

    http://www.nkusa.com

    – Judeus que professam que Jesus é o messias:

    http://www.judeusporjesus.org

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  1. La “Nuova storiografia israeliana” e la teoria dell’unico Stato laico | Lorenzo Piersantelli - 22/09/2014

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