Entrevista a Simcha Levental, ex-soldado do exército israelita.

Simcha sionista

Representantes da associação de ex soldados israelitas “Breaking the silence” visitaram Madrid o ano passado. A sua exposição pode ser apreciada no Círculo de Bellas Artes , e também no Patio Maravillas .

Em 2004, com o título de “Rompendo o silencio: combatentes israelitas falam de Hebron”, um grupo de ex soldados israelitas começou a expor em Telavive as imagens e testemunhos dos abusos quotidianos que os soldados cometem contra los palestinianos. Abusos dos quais toda a sociedade israelita forma parte, uma vez que o serviço militar é obrigatório durante três anos. Como expõe um dos testemunhos,“o Estado delega a enorme responsabilidade de manter a ocupação nas mãos de rapazes e raparigas de 18 anos”. O seu trabalho alargou-se a outros países, mas o esforço é essencialmente interno, de sensibilização dos israelitas sobre a brutalidade da ocupação.

Simcha Levental (biografia retirada do dossier “Rompendo o silencio. Os soldados israelitas falan” [pdf] ) é um dos fundadores de “Breaking the silence”. Emigrou com 14 años desde México com a sua família,  judeus ultra-ortodoxos, que decidiram “seguir a chamada de Deus” e instalar-se no assentamento religioso de Modi´in Illit, construído sobre terras palestinianas. Cresceu considerando a sua presencia ali parte da reivindicação política do direito do povo judeu de viver na Terra Santa.  Durante o seu período no exército sentiu que tinha passado de um grupo opressor a outro e começou a tomar consciência do que tinha feito. “Breaking the silence” não deixa de ser uma organização sionista disfarçada de progressista e democrática. Uma subtil e “útil” arma do sionismo para disfarçar e justificar os seus crimes. Simcha é um exemplo desta disfarçada e perigosa linha ideológica sionista.

A rotina da ocupação

Simcha fala com um forte acento mexicano e a fluidez de quem repetiu a sua história centenas de vezes, conhece o impacto e interesse que suscita. É amável, solícito, se esmera em proporcionar todo o material do projecto que tem à mão.

Pregunta: Durante quanto tempo formaste parte do exército israelita?

Simcha Levental: Três anos, a duração do serviço militar obrigatório.

P: Qual era a tua rotina de trabalho?

S.L: Vigiamos os territorios palestinianos ocupados. Os “checkpoints”. Protegemos os assentamentos. Fazemos buscas casa por casa verificando se há armas…

Simcha fala no presente e no plural da sua passagem pelo exército, a pesar de que faz anos que terminou o serviço militar.

P: ¿Como é a rotina de uma busca? ¿ Entrais na casa de uma família palestiniana e que fazem hacéis exactamente?

S.L: Pois entramos, pedimos a identificação, dizemos “todos ao chão”, fechamos toda a família num quarto e procuramos pela casa, pelos armários e gavetas a ver se há armas.

P: É duro fazer isso?

S.L: A primeira vez custou-me muito, não se me saia da cabeça a imagem da família aterrorizada, as crianças gritando… Mas a segunda vez é menos difícil, e na quinta vez já é fácil. Com o tempo convertes-te num autómato.

P: Como se produz a tomada de consciência do que cada um está fazendo? És um processo gradual, ou existe algo concreto que o desencadeia, algo que marque um antes e um depois?

S.L: É uma pergunta  interessante. Conversei com camaradas de armas. Quando és um soldado, o más importante na tua vida são os teus companheiros, criam-se uns vínculos muito fortes. E falando entre nós, compartindo vivências desses anos, chegamos a entender que aquilo que assimilámos como normal não o era. Que tínhamos contribuído, que todos no exército contribuímos na criação de uma nova geração que nos odeia e nos teme pelo dano que produzimos.

As imagens

Nos levantamos e vamos vendo as fotografias da exposição penduradas na parede, imagens de grande tamanho e nitidez, nas quais se apreciam com enorme nivel de detalhe cenas perturbadoras que Simcha vai descrevendo. Descreve o que se vê na imagem, mas sobretudo descreve o que não se vê.

Como uma série de imagens tiradas por soldados depois de matar um palestiniano que, segundo conta Simcha, se preparava para matar civis em Israel e a quem conseguiram deter antes. Numa das fotografias um soldado sorri para a câmara, a espingarda ao ombro e o pé sobre o pescoço do homem sem vida, sem camisa e com as calças em baixo mostrando a roupa interior. Faz lembrar as fotografias de caçadores mostrando satisfeitos os seus troféus. Noutra imagem cinco soldados rodeiam o mesmo corpo, ao qual apontam sorridentes com as armas.

sionistas assassinos


Aponta agora para outra imagem. Vê-se a dois soldados muito jovens sentados num sofá de uma sala, sorrindo para a câmara em frente de um televisor transmitindo um jogo de futebol.

soldado sionista

P: Que fazem?

S.L: Estão vendo futebol. Na casa de uns palestinianos a quem estão inspeccionando. É a vida diária do exército, em que estas coisas se tornam normais. Ás vezes fazemos jornadas de 18 horas, e em algum momento tens que parar para descansar, fazer coisas normais. Aqui estes soldados decidiram descansar no meio de um mundial e ver o jogo durante uma inspecção, enquanto os donos da casa estão fechados num quarto. Chegamos a ver como normais situações que não o são, que se convertem em parte do nosso quotidiano, até que um dia te dás conta de que tudo isto não é normal. De que o sentido do bem e do mal se alterou.

crianças palestinianas brincando

P: Explicas-me esta fotografias das crianças?

S.L: Sim, esta fotografia é realmente dura. Repara bem nas crianças. Que fazem?

P: Brincam, não? Junto a um soldado israelita, que lhes sorrí.

S.L: Sim. Mas a que brincam? Há três crianças de costas, contra um muro, enquanto outros dois lhes apontam com um pau, como se fosse uma pistola. Brincam a revistarem-se, aos checkpoints, algo que vêm todos os dias. Estas crianças crescem vendo soldados revistar e apontar pistolas aos seus pais, tios…

Volta-se para outra imagem, também de um grupo de crianças, estes vestidos com a kipá judía.

S.L: Olha para estas outras crianças. Crescem vendo como os seus familiares e vizinhos agridem e revistam a outros, vendo isto como algo  normal.

P: Imagino que não é fácil explicar tudo isto em Israel. Que trabalho de sensibilização fazeis ali?

S.L: É muito difícil fazer entender isto ali. Fazer entender que formamos parte activa do problema. Que não há forma possível de humanizar uma ocupação, de torná-la moral. Que tudo lo que nos ensinam, as indicações do que devemos fazer durante o serviço, do que está permitido ou não, tudo isso não serve porque não existe maneira amável de manter uma ocupação. A ocupação em si desumaniza, nos desumaniza a todos, não é possível fazê-la “com luvas”. Esta é a mensagem  na qual insistimos. Que é que temos na vida? A segurança da casa, de que não vem ninguém tirar-nos daí. E isso é o que tiramos aos palestinianos.

P: Que diz esta pintada?

S.L: “Os árabes para a câmara de gás”.

P: Así que há judeus que se referem a um trauma da história do povo judeu para aplicá-lo aos palestinianos.

S.L: Sim, assim é.

Aponta para uma fotografia em que se vê um soldado israelita através da objectiva de uma arma.

S.L: Olah, aqui vê-se a um soldado apontando a outro, provavelmente o que está sendo apontado nem está reparando. A arma é parte da paisagem, um brinquedo mais, tornou-se num brinquedo que forma parte do nosso quotidiano.

P: E estes rostos? São soldados?

S: Sim, são pessoas que participaram em “Breaking the silence”. Para que vejam que não temos cornos, nem nada estranho… (sorrí).

A política de Israel

P: Existe alguma tentativa de vos calar em Israel? Imagino que o que dizeis não é algo que toda a gente esteja disposta a ouvir, sobretudo as autoridades…

S.L: Não, Israel é um pais democrático.

P: Dirias que a minoria árabe de Israel tem os mesmos direitos que os judeus?

Pensa uns segundos.

S.L: Não. Não têm os mesmos direitos.

P: Que política crês que deve seguir-se para alcançar uma solução justa para todos?

S.L: Não sou político, há gente inteligente que tem milhares de soluções. Eu só sei o que é ser um ocupante. Trago esta realidade a todos para que quem possa tome as suas decisões.

P: Não sei se tens acompanhado o sucedido com a Frota de activistas internacionais que tentavam de romper o bloqueio a Gaza. Que pensas do ocorrido?

S.L: Isto é algo que me aborrece bastante… Se dá uma enorme importância a esta frota, e não ao que sucede nos territórios ocupados cada dia. Temos que centrar-nos no quotidiano: nos pescadores palestinianos aos quais se limita a capacidade de pescar, por exemplo. Gostaria que o enfoque se centrasse no quotidiano. Independentemente de isso, deveria fazer-se uma investigação pública e independente do que aconteceu com os activistas.

Fonte: http://alianzas.periodismohumano.com/2010/06/14/no-hay-forma-de-humanizar-una-ocupacion-entrevista-a-simcha-levental-cofundador-de-breaking-the-silence/

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