Mohamed Bakri, realizador de “Jenin, Jenin”: o cineasta palestiniano que queria ser Gandhi.

Mohamed Bakri, realizador de “Jenin, Jenin é um dos actores palestinianos (br. palestinos) mais famosos em todo o mundo e um dos cineasta mais comprometidos da Palestina, país onde vive apesar das inumeráveis ofertas que tem recebido para fazer cinema nos EUA.

Nasceu na pequena aldeia de Bina, na Galileia, e fez o secundário em Akko, antes de matricular-se na Universidade de Telavive para estudar Arte Dramática. Acabava de participar em “La Masseria Delle Allodole“, que se estrearia em 2007, quando me concedeu a entrevista. Participou em filmes da indústria cinematográfica comercial norte americana, trabalhando com atores como Tony Curtis (“The Mummy Lives“) ou Antonio Banderas (“The Body“).

A  exibição de “Jenin, Jenin” foi proibida em Israel.

Contudo, a polêmica que persegue a Mohamed Bakri deve-se aos seus dois documentários de denúncia social sobre a situação na Palestina: “1984” e, sobretudo, “Jenin, Jenin“, onde Bakri denuncia a situação que sofreu o campo de refugiados de Jenin pelas tropas israelitas (br. israelenses) em 2002. Devido a este documental, cuja exibição foi proibida em Israel, Bakri recebeu uma brutal perseguição pública e diversas denúncias que lhe obrigaram a defender-se nos tribunais.

Mohammad Bakri - realizador de Jenin, Jenin

 A odisseia que viveu Bakri por causa de “Jenin, Jenin” – sobretudo tendo em conta de que mantém a sua residência na zona árabe de Israel, ou seja, na boca do lobo – ficou registada no seu documentário “Desde que te foste”, estreado pouco ante de conceder esta entrevista, onde inclui imagens do julgamento e da censura que tem castigado sem piedade a “Jenin, Jenin“.  Apesar de tudo Mohamed Bakri nega-se a abandonar o seu lar na Palestina, desde o qual continua lutando contra a ocupação israelita (br. israelense) com a única arma que conhece: o cinema.

Mohammed Bakri:
Nasci numa pequena aldeia, que era como um campo de refugiados – explica-me o famoso ator e diretor – porque estava rodeada por arame farpado. Não se podia sair daí sem autorização da autoridade militar. Isso durou até 1964. Quando eu tinha cinco ou seis anos os comunistas eram perseguidos pelo exército e pela polícia. O meu tio era comunista e vivia escondido entre o cemitério e a igreja, porque eles não imaginavam que alguém pudesse dormir entre as tumbas. Essa é uma das minhas primeiras recordações. Também me lembro que a minha mãe sempre me dizia: se não me obedeces, vou chamar a polícia. A polícia israelita (br. israelense) representava o mais negativo, o mais assustador. Quando nos ameaçavam com a polícia, obedecíamos. Recordo também quando o exército israeli passava pela nossa aldeia. Sempre nos escondíamos por detrás das nossas mães. Em Galileia, em todas as aldeias se passava o mesmo. Vinham, juntavam toda a gente na praça da aldeia e separavam as mulheres de um lado e os homens de outro. E aos homens os separavam num grupo dos catorze aos cinquenta e os restantes noutro grupo. Um dia separaram uns jovens, puseram-nos em fila e dispararam-lhes em frente de todos. Estalou então um caos. Por isso muitos foram para a Síria e o Líbano. Devido a esta recordação fiz o meu primeiro filme. Essas são as minhas recordações da aldeia e o germinar das minhas inquietações políticas. Uma criança marcada pelo medo, essa foi a minha primeira relação com os israelitas.

Antonio Salas:
Você trabalhou com Antonio Banderas, Tony Curtis, Paz Vega. Porque razão um ator de teatro e cinema reconhecido internacionalmente tem de se complicar a vida realizando um documental tão arriscado como “Jenin, Jenin“?

Mohammed Bakri:
Nem só de pão vive o homem. Olhamos para a nossa cara ao espelho quando nos lavamos de manhã. E quando vamos dormir fazemos um repasso do dia, para podermos corrigir a nossa vida. Se só fizesse filmes com Antonio Banderas, talvez não pudesse dormir de noite. O meu objetivo não é chegar longe em coisas que não afetam diretamente o meu meio. O que eu pretendo é trabalhar no meu ambiente. São as recordações quem empurra as imagens na minha retina. 

Antonio Salas:
Jenin, Jenin é um grande filme. Faz com que o público pense na Palestina e sinta vontade de fazer algo por ela. Mas, quantas vezes se arrependeu de ter feito esse documentário. Passados quatro anos, mudaria alguma parte do guião?

Mohammed Bakri:
Numa me arrependi de ter feito o filme. Se tivesse que fazê-lo agora, não retiraria nada, pelo contrário, acrescentaria. Desejaria não ter de fazer Jenin, Jenin 2, mas as circunstâncias, infelizmente, poderiam ser diferentes, e estes filmes fazem-se por existem os massacres. Estou demandado com uma ação judicial por cinco soldados que aparecem no filme. Pedem uma indemnização de 2,7 milhões de euros por danos causados… soldados israelitas (br. israelenses) que estiveram em Jenin e consideram-se ofendidos. 

Aos conflitos com o governo de Israel a que se teve de enfrentar Bakri devido ao seu documentário, acrescentou-se o fato de dois dos seus sobrinhos estarem implicados numa operação de martírio de Hamas, em 2002. A princípios de agosto, um autocarro cheio de soldados israelitas (br. israelenses) que viajavam de Haifa a Safda explodiu quando um mártir palestiniano (br. palestino) fez detonar o cinturão com explosivos que transportava, perto do Monte Meron, na Galileia. Nove soldados israelitas (br. israelenses) faleceram na explosão. Quatro dezenas de passageiros resultaram feridos. O mártir morreu na operação.

Imediatamente Hamas reivindicou a operação mediante um comunicado na cadeia de televisão de Hizbullah no Líbano, Al Manar, e posteriormente através de um comunicado emitido desde Gaza. Segundo o comunicado, aquela operação de martírio se teria concretizado como represália ao bombardeamento efetuado por Israel na Faixa de Gaza em 23 de julho desse ano, em que morreu Salah Shahade, importante dirigente de Hamas, juntamente com dezasseis civis, doze dos quais eram crianças. Mais danos colaterais.

Mohammed Bakri:
Para mim esse dia foi um inferno, porque sou contra a violência e estou contra os martírios. Rejeito-os sobre qualquer ponto de vista, seja político ou humano. A violência não pode jamais ser um instrumento. Apesar de Israel ser um estado criminoso, eu peço aos meus compatriotas palestinianos (br. palestinos) que renunciem a utilizar as mesmas armas que eles. Nós todos temos que ser Gandhis na Palestina. Temos que ser todos como Gandhi para lhes retirar essa arma aos israelitas (br. israelenses). Eles sempre usam o slogan de que lutam contra o terrorismo, mas isso é mentira, eles são o estado terrorista. De uma forma ou de outra, eles sempre estão por detrás desses ataques porque assim justificam as represálias. Eu não sou responsável pela operação do meu sobrinho, mas sofri as consequências e claro que estou contra. A consequência foi a morte de treze palestinianos (br. palestinos) da minha zona como represália pelo ataque.

Antonio Salas:
Ariel Sharon justificava as suas incursões na Palestina com os atentados suicidas; Bin Laden chama aos muçulmanos ao jihad usando a Palestina como exemplo da opressão ocidental e até a si durante o julgamento por causa de Jenin, Jenin, o compararam com Bin Laden… Não crê que a causa da Palestina e o chamado terrorismo se está convertendo numa desculpa para muitos interesses políticos e econômicos ocidentais?

Mohammed Bakri:
Eu não posso falar de Bin Laden porque para nós continua a ser uma incógnita, não sabemos quem representa porque nunca atacou Israel. Somente conheço Sharon, não conheço Bin Laden. Para mim o que se passou com as torres gémeas é um crime imperdoável. Não me importa que esteja envolvido Bin Laden ou Sharon… e provavelmente estão os dois. Ou talvez Sharon sozinho. A história de Sharon está cheia de crimes bem organizados, bem estruturados, para conseguir os seus objetivos. Como saber quem planifica os atentados para depois justificar a sua política? Bin Laden era sócio e aliado dos EUA em Afeganistão. Então é uma luta de interesses entre dois sócios. Quem é afinal o responsável disso? Para mim é a política externa dos Estados Unidos.

Realmente Mohamed Bakri ofereceu-me um ponto de vista renovador e diferente. O seu desesperado chamamento à luta pacífica – “Todos os palestinianos devem ser Gandhis” – comoveu-me. Bakri estava mais perto do espírito heróico da cooperante norte-americana Rachel Corrie, esmagada por uma escavadora israelita, enquanto defendia umas vivendas em Gaza, ou o câmara gaulo James Miller, atingido a tiro por uma patrulha hebraica enquanto gravava o seu imprescindível documentário “Death in Gaza“. E a sua lúcida reflexão sobre a não intervenção de Bin Laden na Palestina intrigou-me. Antes e depois de Bakri encontrei muitas outras vozes cépticas em relação a Bin Laden, durante esta investigação. Vozes que criticavam ao líder de Al Qaida a instrumentalização constante que fazia do drama palestiniano (br. palestino) sem jamais ter participado de forma ativa no conflito árabe-israelita. Para um número surpreendente de entrevistados árabes e/ou muçulmanos, isso significava que Al Qaida ou não existia, ou trabalhava ao serviço dos interesses imperialistas…

Autor: Antonio Salas
Tradução: sionismo.net
Fonte: “El Palestino”

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